17 abril 2018

De frente com a Kim - Vanessa Santos


Oi amores!
O “De frente com a Kim” de hoje é com a minha professora de Sociologia, Vanessa Santos. Além de ser professora, ela é blogueira, está sempre dando palestras e empoderando outras pessoas negras.

Kim: Olá, Vanessa! Gostaria de agradecer por aceitar meu convite.
Vanessa: Olá, Kimberly! Eu que agradeço pelo interesse em entrevista uma pessoinha doida como eu! Hahaha

Kim: Fale um pouco sobre você (nome, idade, coisas que gosta...).
Vanessa: Meu nome é Vanessa Santos, tenho 37 anos e sou formada em Ciências Sociais pela Unesp Campus de Marília. Leciono Sociologia na rede pública estadual e possuo uma página de moda, fotografia e comportamento, no Facebook e Instagram, chamada AfroUrbanas. Também sou idealizadora e produtora do evento que acontece anualmente, o Nós Terezas - evento que busca fortalecer laços, fomentar o diálogo e dar visibilidade a arte, estética, literatura e memórias das mulheres negras. Ah! Também sou apaixonada por gatos, egiptologia e drinks.

Foto por: @morenasoares

Kim: Você prefere ler outros blogs ou escrever sobre negritude? Por quê?
Vanessa: Os dois… há semanas em que me considero melhor leitora do que escritora. Na verdade acho que meu forte é vídeo, viu?! Rsrs… mas enfim, creio que ler outros blogs, ouvir pessoas de forma geral, nos auxilia na escrita... nos traz novas reflexões e com isso mais combustível para produzir conteúdo.

Kim: Em sua opinião, qual o papel da sociologia na sociedade atual?
Vanessa: A sociologia surge num momento de desorganização social... isso dá a ela esse dinamismo e poder de adaptação. A Sociologia, a História, a Filosofia são de extrema importância para a formação do pensamento crítico, visão ampla, formação de um cidadão ativo, minimização de tensões sociais... principalmente agora, nesse período em que observo extremo crescimento dos discursos de ódio.

Kim: Na sua graduação, quais foram os seus livros favoritos?
Vanessa: Eu sou péssima com nomes! Rsrsrsrs Acho que os livros favoritos da graduação acabam sendo os nossos livros teóricos favoritos também…mas eu sempre fui muito atraída pelas leituras antropológicas nos primeiros anos de graduação. Depois me afastei um pouco...

Kim: Quais são os seus livros teóricos favoritos?
Vanessa: Eros e Civilização - Hebert Marcuse
Vigiar e Punir - Michel Foucault
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - Max Weber
A Economia das Trocas Simbólicas - Pierre Bourdieu
A Era dos Extremos - Eric Hobsbawm
O Capital - Karl Marx
Mulheres, Raça e Classe - Angela Davis...

Kim: Quando você percebeu a sociologia na sua vida?
Vanessa: Olha, eu entrei na faculdade meio sem saber o que eu estava fazendo lá! Acho que é normal isso...tem toda uma pressão social para que você entre na universidade, mesmo sem saber se é aquilo que você quer e sem respeitar seu momento. Eu queria passar em Jornalismo, mas a pressão social veio me esmagando depois do terceiro ano tentando ingressar. Ciências Sociais foi minha segunda opção, entrei lá meio contrariada, mas me apaixonei! No fim do primeiro ano eu já estava fazendo várias autocríticas e problematizando tudo... percebi que era o caminho certo.

Kim: Fale sobre sua relação com a sua negritude e como isso se aplica na sua vida.
Vanessa: No Brasil mesmo que a gente nasça negro bem escuro, vão te dizer que você não é negro! Esse racismo hipócrita do Brasil destrói a possibilidade de construção da identidade afrodescendente e de um diálogo aberto sobre raça, socialmente falando. Pra você se desvencilhar dos estereótipos racistas e das feridas que o racismo deixa na alma, vai tempo! E tem que ter muita força!
Aceitar-se negra de corpo e alma é um processo... eu iniciei esse processo em 1999 com o cabelo. Eu alisava os cabelos e resolvi parar com aquela tortura e usar meu cabelo natural. Foi um choque pra sociedade porque quase ninguém usava cabelo crespo naquela época... ainda mais em Bauru! Rsrsrs depois foi o momento de passar a me achar bonita, aceitar meus traços…
Uso minha negritude, meu cabelo crespo, minha estética como uma arma contra o racismo! Meu corpo é um instrumento político a todo tempo...seja para fortalecer outras mulheres negras ou afrontar preconceituosos.

Kim: Há algum livro que seja muito parecido com a sua vida?
Vanessa: Eu amo O Mundo de Sofia Jostein Gaarder. Me identifico muito com a personalidade Sofia Amundsen. Curiosa... questionadora... sonhadora também.

Kim: Possui alguma teoria na sociologia na qual você não concorda?
Vanessa: As teorias do racismo científico que perduraram até o início do século XX. Na verdade elas tão por aí até hoje em novas roupagens.

Kim: Quando você se percebeu socióloga?
Vanessa: Pra mim a ficha só caiu quando eu terminei a graduação e fui trabalhar. Até então eu vivia o mundo da teoria, do ambiente acadêmico... no mundo real é que o bicho pega!

Kim: Por que você escolheu ser professora?
Vanessa: Olha, confesso que não foi uma escolha. Eu nunca me imaginei professora, lecionando, sabe? Sempre me imaginei em contato com jovens e adultos, palestrando, organizando eventos, me comunicando... mas não professora. Na verdade quando saí da graduação tinha planos de fazer mestrado, ir embora de Bauru, mas por vários motivos delicados eu fui ficando e abdicando do sonho de voar. Aí novamente a pressão social veio, me disse que não tinha mais tempo para me dedicar só a estudar e prestar concursos...fui trabalhar como professora eventual, depois professora contratada por dois anos e finalmente efetiva. Em breve pretendo mudar de área. Amo meus alunos, mas o sistema de educação da rede pública do Estado de São Paulo é extremamente desgastante! Desumano mesmo! Sinto que vou adoecer se ficar...

Kim: Como começou o AfroUrbanas?
Vanessa: AfroUrbanas começou em junho de 2016 como uma forma de retomar meu sonho de ser uma “comunicadora”. Eu senti que estava deixando tudo que eu gostava pra trás...estava totalmente desmotivada e desenergizada. Então eu disse: Chega! Fiz a página no Facebook meio sem saber como ia ser, fui compartilhando meu mundo com as pessoas - moda, fotografia, literatura, gastronomia... e foi fluindo... está fluindo! Esse ano tenho me dedicado mais a ela, mas ainda não consigo produzir muito conteúdo próprio por absoluta falta de tempo para escrever e pesquisar.

Kim: O que o AfroUrbanas significa para você?
Vanessa: A AfroUrbanas sou eu de verdade! Ela é meu espelho, a forma como eu me enxergo. Esse amor pelo belo, pelas sutilezas da vida e de vez em quando uns rompantes de revolta Rsrs...Amo a AfroUrbanas porque ela me possibilita sonhar e encontrar outros sonhadores.

Kim: Cite personalidades que te inspiram.
Vanessa: Minha mãe - Isabel, minha tia Elvira, minhas avós já falecidas - Ana e Josephina, Chimamanda Adichie, Bell Hooks, Angela Davis, Conceição Evaristo, Dona Jacira, Carolina Maria de Jesus, Audre Lorde, Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Clementina de Jesus, Elza Soares, Josephine Baker, Nichelle Nichols Nina Simone... são muitas!

Kim: Deixe algumas palavras para inspirar outras mulheres que ainda não encontraram o poder em si.
Vanessa: Tem uma frase que gosto muito... ela é de uma música do Caetano Veloso e diz: “ Respeito muito minhas lágrimas, mas muito mais minha risada.” Acho que esse é o caminho para tudo...o caminho é o auto respeito e o auto amor. Sei que as vezes a gente espera reconhecimento alheio, mas temos que buscar mais força em nós mesmas! É difícil... não é fácil...porém é possível exercitar a força feminina todo dia dentro de nós.  Abandonar o que faz mal, o que nos paralisa enquanto seres humanos.
Numa sociedade que nos impõe padrões estéticos e comportamentais machistas, sexistas e misóginos a todo momento, ser uma mulher gentil com sigo mesma, uma mulher inteligente e questionadora é ser revolucionária, transformadora e inspiradora! E é isso que eu desejo a todas!
Beijos!

Conheçam o AfroUrbanas!

Fiquei muito feliz mesmo por ela aceitar o convite, amei a entrevista e espero que vocês também gostem.
Beijinhos, Kim.

2 comentários

  1. Olá Kim, adorei a entrevista, muito inspiradora, e essa dica que ela deu no final eu procuro seguir, é difícil mas eu tento. Parabéns pelas perguntas, com elas deu para conhecer bastante da entrevistada. Bjs

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    1. Ela é uma mulher muito inspiradora. Uma das melhores professoras que já tive.
      Obrigada Gil, beijos <3

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